Soltos / POR Johnny Guimaraes
14 de julho de 2017

Avenida Cristiano Machado

Macárius vestiu a poesia,
Eu, um terno.
-E os dois saíram à rua para ver o acidente.
Macárius recitou a morte,
Eu afrouxei a gravata.
-E os dois levantaram o jornal
Para ver o corpo parecer uma mentira.
A poesia dava tapas na cara,
O traje me chamava ao escritório.
-E os outros, do colorido de uma favela,
Já pensavam na tela confirmando seus comentários.
O asfalto impedia o pouso de uma cruz de pau,
Motoristas buzinavam o engarrafamento,
E a Prefeitura, cumprindo suas obrigações,
Limpava a via, afinal, na vida
Não há lugar para empecilhos.
Macárius, poesia perene, deu uma risada aérea.
Eu tinha compromissos inadiáveis.
-Um a um os segundos voltaram à avenida,
Um a um os carros rolaram seus atrasos,
Um a um a dispersão fez do dia

Um acontecimento irrelevante.

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