Futebol de rua Historinhas Sem categoria / POR Johnny Guimaraes
20 de março de 2021

Cosmos Futebol Clube de Rua

O Cosmos era o único time de futebol de rua treinado por uma técnica. Isso mesmo; era uma moça que nos treinava e, embora já houvesse algum comentário sobre este pormenor, os meninos, querendo saber mais de futebol do que de preconceitos, não estávamos nem aí.

Treinávamos duro havia dias para o confronto de domingo (as mães se regozijavam com a ausência dos meninos em casa todo o dia). No campeonato do bairro São Marcos, enfrentar o Ferradura era lutar contra a elite. Os caras tinham camisas com patrocínio, treinador bigodudo com currículo e pareciam todos loiros e de banho tomado.

O nosso Cosmos tinha um conjunto de camisas dado por um candidato a deputado federal e tinha o craque Nem. As camisas faziam tanto a propaganda do deputado que era impossível não imaginar que nosso time fosse o Vasconcelos Futebol Clube, o que, claro, era motivo de chacota.

Foi minha vó que bateu na porta do comitê de campanha e conseguiu o conjunto de camisas com o nome do candidato. As camisas, um pouco grandes para nossa magreza, eram mais uma faixa publicitária do que um uniforme. Para completar a alegoria, o Nem, nosso líder, lidava com o ápice de uma micose espalhada por todo o corpo que ruía sua autoestima. A micose rendara-lhe o apelido de Torresmo e, sem tratamento, estava longe de acabar.

Nem, nosso camisa 10, portanto, sofria com a consequência do mergulho na Lagoa da Pampulha, deixando o time com poucas chances.

Mas seguíamos na esperança de vencer o Ferradura até a véspera do jogo, encorajados pela voz feminina de nossa comandante.

Acontece que a realidade quando se apresenta tem jogadores demais e parece bater duro como martelo nos dedos.

E por isso começamos o jogo nervosos e desentrosados e já perdíamos por um a zero, sem nem perceber como tomei aquele gol.

Seguramos vinte minutos o placar, até que houve uma falta perto da área. Imaginei que podia agarrar e afastei a barreira. O craque do Ferradura tomou distância e lançou outro chute no ângulo.

Saltei como se esquecesse a importância dos olhos da vizinhança. Saltei como se escrevesse por um caminho seguro, como se saltasse numa piscina azul e morna. Saltei como um gato vira-lata e agarrei direitinho aquela bola coquinho, impedindo o segundo gol dos metidos.

O placar de 1 x 0 era, até então, um alívio.

Fomos para o segundo tempo.

O Tande entrou bem no jogo e o Nem, ou Torresmo, se mostrou grande torcedor na reserva. Tande conseguiu a proeza de empatar o jogo com um gol de barriga.

O Dengo, mesmo amarradinho, conseguiu marcar o dele. Ganhávamos por dois a um e não acreditávamos. Nossa técnica, sempre tão severa, deixava alguns sorrisos em forma de palmas chegar a nossos ouvidos. Éramos pura empolgação àquela hora.

No último minuto do segundo tempo, o Ferradura Futebol Clube conseguiu um contra-ataque veloz. Em dois passos, o filho do dono do time estava a poucos metros da área, e deixara o Binha, nosso gordinho zagueiro, deitado na rua. Veio em minha direção e, antes de atirar, disse maliciosamente:

– Pega goleirinho!

E soltou um bicudo daqueles.

O chute veio forte como o do meu pai. Aquela defesa, se conseguisse, talvez fosse minha convocação para o Ferradura, pensei por um segundo.

Saltei e vi que meus reflexos eram de outro mundo.

Fiz o que nem dei notícia.

A defesa conseguiu segurar a vitória do domingo e a felicidade eterna da galera.

Quem viu a defesa, até hoje me respeita.

Nunca fui convocado para o Ferradura, que era um time de meninos penteados e de unhas cortadas. O Cosmos, que foi imortal naquela tarde, teve vida curta na federação dos times de rua do bairro São Marcos. Durou pouco, menos do que a micose do Nem.

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