Historinhas / POR Johnny Guimaraes
11 de setembro de 2020

Kung Fu Betta

O peixinho recebeu o nome de Tog. Parecia uma sigla, mas como surgiu da imaginação do menino, todo mundo gostou.

Vivia num aquário, com pedrinhas coloridas e uma rama de plástico no meio. Era vermelho, de um vermelho escuro e provocante.

Gostava de se exibir quando nos aproximávamos.

Ouvi dizer que esta espécie de peixinhos gosta de briga. Tão pequeninho e indefeso… Será verdade?

O certo é que dávamos cinco bolinhas de proteína toda manhã, trocávamos a água do aquário toda semana, e ele observava com atenção os movimentos de toda a família.

Só não aceitava que se aproximassem do aquário.

Parecia encarar a gente. Se você colocasse o dedo indicador perto do vidro, ele dançava, abria as barbatanas, querendo defender o seu território.

Mas quem gostaria de trocar de lugar com ele, morar no seu minúsculo aquário? Fico me perguntando.

Era comum surpreendê-lo, dormindo.

Dormia de um jeito quase estátua, que parecia fruto de meditação, que dava medo da frágil criatura ter-se ido. Parecia se fingir de morto. Conferíamos com o dedo, cutucando para ver se estava vivo, e ele já acordava chamando para o ringue.

Foi numa destas que o menino teve a ideia de buscar o boneco de brinquedo do Kung Fu Panda e colocar bem em frente ao aquário.

Donde veio esta maluquinha ideia, ninguém sabe. Mas como surgiu da imaginação do menino…

O Tog observou aquele adversário pançudo, eriçou as barbatanas, quase ficando na ponta de um só pé, ops!, quer dizer, modo de falar…

O certo é que Tog não respeitou o mestre das artes marciais, o famoso e lendário Kung Fu Panda, e ficou fazendo cara feia, chamando o oponente para dentro ou ameaçando vir para fora, para uma contenda.

Ficaram um tempão olhando um para o outro.

O Kung Fu Panda, numa posição eterna de um golpe fatal, nem mexia os olhos, nem as pernas, nem os braços, nem nada, já que era mesmo de um plástico rijo.

O Tog se movimentava todo, num estilo agressivo, e acho que mostrou conhecer alguns golpes impossíveis para meros iniciantes.

Ele era um mestre e nem sabíamos quando o compramos.

Pensei que fizemos um bom negócio, portanto.

Acontece que chegou a hora da escola do menino e naquele dia havia dever de casa para entregar, era dia do brinquedo e o pai estava com pressa, e talvez por isto esquecemos o Kung Fu Panda em frente ao aquário do Tog.

Para quê, meu Deus?

Foi uma tarde inteira de intensa luta… pelo menos dentro daquela caixinha de vidro.

Se peixe suasse, o Tog estaria encharcado de tanto soco que dera na água.

Mas, valeu a pena. Pois, no fim da tarde, quando o menino voltou da escola, qual não foi a surpresa em encontrar o Kung Fu Panda deitado, com uma gota d´água na testa, bem próximo ao aquário.

– O Tog venceu! Gritou o menino, quando viu a cena.

TOG versus KUNG FU PANDA!

– O Tog venceu! Repetiu o menino, orgulhoso.

O pai, depois de fechar a janela, não soube explicar o que tinha acontecido, ficando com a explicação e entusiasmo do menino.

Na manhã seguinte à luta, por precaução, diminuiu de cinco para três bolinhas de proteína a alimentação do Kung Fu Betta.

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