Urbanas / POR Johnny Guimaraes
27 de agosto de 2020

Madeixa urbana

Pouco para contar. Apenas discutíamos o sequestro diário de nosso recato, ou como melhor diria Nélson Rodrigues, “o túmulo do pudor”, o ônibus apinhado. Sim!, todos os dias são pernas que se abespinham, línguas em diagonal, caretas impossíveis e uma sacola repleta de mau-humor.

Tudo acontece em pouca distância e muito tempo em nossa velha conhecida, a vetusta e malquerida condução. Não há exemplo maior de ineficiência do que o transporte público brasileiro das grandes cidades.

Pois bem, falávamos (modo de dizer, uma vez que do punhado de passageiros ali sofrendo, só um resmungava) num ônibus. Sobre o quê? Óbvio: sobre a evolução da espécie humana.

– “Meus Deus!, seria este o objetivo final de nossa mutação? Então, deixamos a curvatura animalesca, atingimos a elegante postura ereta, apenas para melhor cabermos nestas lotações urbanas?! Não daria em outro sucesso o evolucionismo, senão nessa malfadada sina de ocuparmos, como palitos, um espaço definitivamente menor do que a soma de nossos corpos? Pois surpreendemos os darwinistas e, além, acabaremos por matar Newton e aquela velha história de um certo espaço, um certo corpo.”

Assim, choramingava meu companheiro de suplício. Está entendido que não o via, mas de alguma maneira intuía que o destinatário daquela lamúria não era outro, era eu mesmo.

Não seria mais fácil pedir licença ou me dar um empurrão? Ou, no caso do culto e pedante citadino, dizer “por obséquio”?

Articulei uma secreta resposta com a beira da boca, apertando o vulgar palavrão como numa máquina manual de fazer pastel e dei o sinal de quem quer a próxima parada. Não queria, mas desci de raiva.

Já na calçada vazia, encontro um colega que, por acaso, também ouvira a palestra ambulante do usuário irritadiço. Seguíamos pelo mesmo caminho, quando o infeliz (apenas colega), completando meu dia, reclamou sem prévias:

– É, ele está vestido de razão. Transporte coletivo: uma madeixa urbana!

Madeixa… Por um segundo, lembrei-me de Tomás Antônio Gonzaga e sua vasta cabeleira.

É brincadeira? Há dias que são noites… O que dizer?

Apenas:

– Cuidado, meu caro. Cuidado ao cortar suas mazelas.

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