Historinhas / POR Johnny Guimaraes
9 de setembro de 2020

Meu cavalo Forró

O vovô decidiu morar bem longe, num sítio que a gente demorava para chegar. De tão escondido, era preciso querer estar ali. Passava-se por uma estrada de terra, muitas lombadas e um montão de curvas.

Era tão longe que o vovô parecia morar sozinho naquele mundo, depois de uma ponte e de um riacho perdido e quase seco, pelas bandas de Montes Claros.

Mas, como atrativo para o menino e demais netos, o vovô comprou um lindo e sistemático cavalo.

Aquele cavalo habitava o sítio como um doce que atraísse a criançada. Poderia ser um naco de goiabada, mas era um dócil cavalo.

Parecia ser usado na lida da roça, ser de todos os netos, mas de alguma forma ficou aquela verdade que era propriedade do menino e só dele.

Acho que o avô disse esta verdade um dia, como um segredo, ao pé do ouvido, com força de lei. Como se, naquele instante de confidência, houvessem entrelaçado, carinhosamente, numa nuvem, o destino do bicho e da criança.  

No primeiro dia em que o menino, cheio de expectativas, foi conhecer o cavalo que ganhara, decidiu dar-lhe um nome pomposo.

Pensara numa coleção deles: Corcel, Thor, Trovão e até Coronel. Afinal, ser dono é dar nomes. No entanto, o vovô se adiantou ao batismo, com uma voz melosa e na tonalidade exata, dizendo:

– É seu, o cavalinho, mas já veio com nome: Forró!, não é lindo?

Ah, mas ele disse com aquele jeito de avô e o menino adorou já ganhar um cavalo com nome de fábrica.

E o nome era diferente de tudo e por isto era ideal, de certa forma se encaixando com a esquisitice do cavalo.

É que o cavalo era de um tipo que, uma vez com cela, não aceitava passar perto de nada que ameaçasse deixa-lo fechado. Nada mesmo. O Forró era um cavalo baio, forte, ágil e que se desesperava quando diante de algum aprisionamento.

Cerca, porta, parede, corredor, tudo que desse a impressão de fechar o cavalinho era motivo para o descontrole.

Até se o cupinzeiro do pasto fosse mais alto, o Forró já ficava cismado.

Entrar numa baia, nem pensar!

Ele pulava, nervoso, girava a cabeça, ameaçava dar pirueta, era um fuzuê.

E o menino aprendeu a lidar com aquele defeito do cavalo perfeito.

Andava com segurança o dia inteiro nas costas do Forró, ao ponto de o caseiro brincar, quando o cavalo voltava todo suado, no fim da tarde:

– Deste jeito o Forró desafina!

O menino e o Forró criaram uma amizade bonita de se ver. O cavalo permitia alguns galopes, deixava que o menino o empinasse e era visível a alegria de ambos.

Foi assim que, com o Forró no sítio, decidimos sempre visitar o vovô e o cavalo.

Certo dia, depois de alguns meses de saudades, compramos passagem para apear naquele rancho tão caro para nós e distante de tudo.

Havia uma notícia no jornal regional que trazia uma certa preocupação para nossos planos.

No rumo do sítio do vovô, a poucos dias de nossa viagem, houve tremores de terra.

Alguns jornais estampavam com sensacionalismo o nome que dava medo: “TERREMOTO”.

Será? Será que houve mesmo?

O menino, quando ouviu a notícia sobre o tremor de terra, comentou:

– Eu sonhei com isto. É o Forró me chamando! Batendo os cascos de saudade!

Ri da farta imaginação do cavaleiro mirim.

Telefonei para o vovô, joguei fora o medo e confirmei nossa ida.

Os dias que antecederam a viagem foram de uma ansiedade enorme. Fizemos contagem regressiva e a saudade do Forró chegava a ser a maior das saudades.

Logo que chegamos ao sítio, o menino, antes mesmo de se aquecer no abraço do vovô, saltou para cima da cela e de lá não desceu nem para almoçar.

Os dois, cavalo e menino, possuíam a mesma alegria de todos os filhotes.

Era fim de tarde, quando, de repente, houve outro tremor de terra. Dos grandes.

Que medo!

Assustado, olhei para o longe e vi o Forró e o menino.

O cavalo estava empinado e vi quando sua pata tocou o chão, coincidindo com o estrondo que se seguiu.

E vi o cavalo empinar novamente e percebi o tremor de terra e ouvi o estrondo coincidir com o toque das patas do cavalo no chão.

Assustadíssimo, olhei para o vovô, que sorriu sem surpresas.

O caseiro, cúmplice, observava desde o milharal e, após o tremor e o estrondo, voltou a baixar os olhos e a capinar e capinar.

O menino gritava ao longe:

– Não falei, papai, que era o Forró?

E vi o cavalo batendo os cascos de alegria.

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