Historinhas / POR Johnny Guimaraes
5 de setembro de 2020

Patrolas e peixinhos #fiqueemcasa

Perto da casa do menino havia uma grande obra. Como estávamos no meio da pandemia, só poderíamos agradecer muito ao prefeito por trazer esta diversão para aqui, bem embaixo de nossa janela. Realmente se revelava uma ação de uma generosidade ímpar da prefeitura.

Logo pela manhã, os monstros de metal já começavam seus barulhos. Eram tratores enormes, patrolas, caminhões pipas, rolos compressores e outras máquinas que nem sabíamos ensinar os nomes.

A obra era no viaduto do complexo Carlos Drummond de Andrade e virou rotina da família, à tardezinha, paralisar o trabalho e fazer um passeio naquele safari urbano e de ferro.

O menino viajava lindamente com a visão das máquinas, se empolgava, vibrava e o dia começava mais ou menos assim:

Às 7:30 h da manhã:

– Hoje nós vamos ver a obra? Não é? Sério? Seríssimo? Serião? Seriússo? Seriaço? Sério-tiranossauro-rex?

Era o peculiar jeito dele de nos arrancar um contrato inquebrantável.

Às 7:35 h da manhã:

– Hoje nós vamos ver a obra? Não é? Sério? Seríssimo? Serião? Seriússo? Seriaço? Sério-tiranossauro-rex?

Às 7:36 h da manhã:

– Hoje nós vamos ver a obra? Não é? Sério? Seríssimo? Serião? Seriússo? Seriaço? Sério-tiranossauro-rex?

E aqui podemos usar as reticências e dizer que dezenas de vezes se repetia o pedido. Só mesmo o passeio estancava a lamúria. E, por mais pacientes, era a solução.

Ai de nós, se não…

Neste dia, logo que chegamos para o piquenique diário e obrigatório aos pés da maquinaria, nos deparamos com o horário de almoço dos maquinistas, pedreiros e auxiliares.

– Olha, menino. Demos azar, que pena. Estão lanchando e as máquinas todas paradas. Vamos ver os peixinhos daquela casa da rua de baixo, depois a gente volta.

Mas o menino não gostou tanto assim da troca da retroescavadeira amarela pelos peixinhos brancos e laranjas, e cobrou seu preço:

– Mas a gente volta para ver a patrola? Sério? Seríssimo? Serião? Seriússo? Seriaço? Sério-tiranossauro-rex?

E como não voltar?

Vivíamos numa época em que as viagens, os amiguinhos da escola, os passeios diversos eram apenas fotografias nos celulares e redes sociais. Mas como doíam!

Seria impossível não ceder ao pedido de resistência feliz desta meninada, não à toa o grupo mais forte nestes dias. E, claro, voltaríamos.

Saiu a família de máscaras coloridas, em direção à casa dos peixinhos.

O pai com uma camuflada, a mãe com uma singela e linda máscara de flores, a pequenininha com uma mínima máscara de sereia e o menino com a titular, a máscara de um herói que nos salvava dos apuros e garantia para os pais algum momento de sossego.

Não havia pedras no caminho, e quando já nos aproximávamos do endereço que virou um de nossos pontos turísticos, os meninos começaram:

– Um, dois, três, quatro, cinco… peixinhos!!!!!

E eram pulos de alegria e uma familiaridade com as carpas da cascada do jardim do vizinho que só mesmo a reclusão da quarentena poderia propiciar.

Embora o menino tenha saudado os peixinhos e reparado na retirada de um tufo de plantas aquáticas, já veio com a pergunta:

– Já acabou a hora do lanche? A patrola já está funcionando? Vamos voltar? Sério? Seríssimo? Serião? Seriússo? Seriaço? Sério-tiranossauro-rex?

– Vamos, sim, já prometi. – respondeu este pai, se derramando.

E voltamos pelo bairro, em ziguezague, até chegar perto dos tratores e do viaduto que levava o nome do poeta.

E as máquinas estavam a pleno vapor. A patrola fazia muito barulho. O rolo amassava tudo. A retroescavadeira fazia buracos enormes. Os moços reviravam a terra, jogavam água e usavam roupas vermelhas. O cheiro de poeira e piche e de movimento e construção e existência era uma delícia e nos deixavam deveras comovidos.

As buzinas e os capacetes dos obreiros completavam aquele cenário de pedra que, por aqueles dias, era nosso mundo, vasto mundo.

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