Futebol de rua / POR Johnny Guimaraes
23 de agosto de 2020

Rompimento de vô Hugo das Sombrinhas com o Jacaré de Sete Lagoas

Fiquei sabendo que não é verdade que Vô Hugo escreveu o hino do Democrata de Sete Lagoas.

Junto com os brinquedos de sucatas que ele fazia, das beliscadas de formiga que nos dava, também a memória tinha este registro.

Se fosse verdade, o google diria. Não diria?

Então quero fazer justiça com o “Seu Hugo” e deixar seu nome voando por aqui: foi ele quem me mostrou o time certo para amar, foi ele quem nadou contra a correnteza da idade e decidiu nos acompanhar no Galo x Democrata de Sete Lagoas, lá pelos idos de minha infância.

Naquele domingo, passamos pela roleta com o meu avô e fomos sentar nas arquibancadas repletas de fanáticos pelo esporte. Mal sentamos, eu já pensava no picolé de brinde e a torcida interiorana do democrata entoava para todos ouvirem:

-Ahaha uhuh ô atleticano… (parte censurada pela política do adSense)

E por aí foi a rima das palavras de baixo calão, desaguando nos córregos mais imundos das ofensas.

Vô Hugo, imenso atleticano, sozinho e impotente diante daquela massa vermelha, sentiu a gota de revolta pingar lá dentro. Bílis, gota de chumbo, ácido, soda cáustica, sapos, cobras e lagartos. Em defesa, mandou a bodocada que acertaria tiziu no voo:

– Eu já estou muito velho para ouvir isso, eu vou é embora!

O jogo nem sonhava em começar. Os times ainda não estavam em campo e meu avô deu aquele chutaço do Éder Aleixo dos Guimarães.

Com o pontapé, acabou meu picolé.

Vô Hugo foi mesmo pra casa, e apesar dos argumentos da torcida, tivemos que o seguir. Não me lembro do vencedor do jogo ou placar, do sabor doce e caseiro que queria, apenas ficou a imagem de revolta daquele último respeitoso patriarca e as cores do sorriso inacreditando de meu pai.

Creio que data dessa época a decisão firme de retirar do hino do Democrata Futebol Clube o seu nome.

Foi neste dia que ele sentenciou, contra os apelos de todos familiares (inclusive dos inúmeros netos que ainda viriam) não ter escrito a canção.

Foi aí, pela ingratidão da patuleia conterrânea, que o Dom Hugo das Sombrinhas, também conhecido como Seu Hugo Passarinho, rompeu com o Jacaré em definitivo, para o passado, presente e futuro.

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