Historinhas / POR Johnny Guimaraes
15 de setembro de 2020

Todos os bichos

Pedrinho decidiu que ele tem todos os bichos da natureza, inclusive os de verdade, aqui em casa. Acontece que esta decisão trouxe para a família algumas situações embaraçosas.

Como entrar, por exemplo, com todos os animais no elevador?

– Apertam com os chifres os botões do painel, óbvio. E para abrir a porta, usam as orelhas – respondeu o menino.

E todos os bichos moram dentro do apartamento, desde então, até os maiores e pescoçudos.

Os que voam, fazem ninho nas nossas janelas, postes vizinhos e em alguns telhados. Mas o habitat é aqui e ponto final.

O urso está no banheiro, e é melhor tomar cuidado quando abrir a porta para não ferir o bichinho.

Ontem à noite, deitamos na cama de casal para assistirmos ao espetáculo dos bichos marinhos lá embaixo, perto dos chinelos. Os tubarões tentavam nos pegar. Golfinhos faziam manobras repetitivas. Tartarugas se exibiam e batiam forte os cascos na madeira do estrado. A cama era nosso bote e salvação. Ao menor sinal de uma abocanhada, voltávamos sorrindo para o centro dos lençóis.

Todos os bichos da natureza também se adaptaram fácil ao automóvel da família, de porta-malas largo.

Melhor assim, porque nunca aceitam ficar a sós no apartamento.

O embarque é simples: é só esperar um minuto a mais, alongando o ritual de apertar o cinto, vestir as máscaras etc, que os bichos, adestrados, já pulam para dentro, junto com o menino.

Se alojam como podem no bagageiro, porta-luvas e chegam a se sentar no volante, conforme o encaixe.

Vez em quando, ao chegarmos ao sítio do vovô, é só abrir a porta para que os bichos saiam em debandada, alguns em revoada, tomando seu espaço de direito.

Um dia, perguntei:

– Pedro, mas você tem todos os bichos mesmo, até jabuti?

– Claro, pai, não quero que pergunte – ralhou comigo. Tenho todos os bichos da natureza, reais e de mentirinha, e jabuti é um bicho, né! – resolvido.

– E libélula? – insisti.

– O que é libélula? – inquiriu, curioso.

– Um inseto – expliquei.

– Então, sim, se tenho todos! – ralhou de novo.

–  Não me pergunte que me irrito! Já disse que tenho todos os bichos da natureza! – e nunca mais questionei.

Me fascino com o entusiasmo dele ao descobrir uma nova espécie, alargando assim sua posse e riqueza.

Temos aprendido a conviver com os bichos nesta quarentena.

Às vezes, tenho certa preguiça em pensar na limpeza. Imaginem tanto cocô.

Às vezes, tenho muita preocupação, quando penso nos custos da alimentação. Quilos e quilos de ração e carne e capim, tão caros.

Mas o maior receio é pensar nas prováveis disputas de território.

Até hoje, parece que vivem em harmonia, junto com os
dinossauros, tratores, forte apache e pistas de carrinhos. A dificuldade é manter a paz com os objetos dos adultos, que, vira e mexe, se espatifam pelo chão.

Não tenho medo de nenhum dos bichos da natureza do Pedro.

Tenho medo é de que o tempo não consiga mantê-los em
nossa cercania.

Tenho medo de que o tempo permita que o cavalo saia a galope, que se afaste; de que o elefante penetre numa floresta distante; de que o gavião busque um cume; de que os insetos brilhem e eu nem os veja.

Um dia, talvez, e tomara que demore uma infinidade, o avestruz e o “tamanho do A” (assim mesmo, rs) serão engolidos pelo tempo, este predador monstruoso.

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