Perdidos / POR Johnny Guimaraes
13 de julho de 2017

Tudo em ordem

Estava com a consciência andando de um lado para o outro e resolvi entrar no quarto dele. Comecei a arrumar gavetas, colocar as coisas em pilhas e minimizar as dobras de panos.
Passei o aspirador de pó e comprei nova pasta de plástico, que aquela estava no fim.
Depois do ensaio, saltei sobre os cadernos e livros. Sabia, por experiência, que são páginas marginais, muitas vezes, as últimas, algumas vezes, páginas esquecidas pelo meio da brochura, o depósito de pequenas fugas, alguns crimes e rebeliões.
Tudo em ordem.
Os desenhos acompanhavam a disciplina exigida e as letras se esforçavam pela estética, embora sempre se traiam (nas letras acontece o maior dos embates, talvez).
Eu não estava sôfrego, já que a autoridade de pai me permitia aquela invasão protetora, aquele esmagamento.
Passei em revista um depósito de números, letras, vistos, notas, deveres.
Mas foi na última página que encontrei o primeiro capítulo – “Capítulo 1 – O que aconteceu?”.
Havia ali uma história de um ocorrido num mundo de nuvens. Como assim?
Havia ali uma porta não projetada, um passo não permitido, um olhar com muitas cores e retinas. Mas se não estava na agenda, como assim?
Ali os contornos se misturavam e, de repente, nada tinha limites. Mas se não era dever de casa, como assim?
Ali não havia como me impor ou, antes, ninguém podia se impor naquele espaço insustentável. Depois de todo o tempo preenchido, a rotina evitando o ócio, como assim?
Fui sugado a vistoriar a brecha e o que lá havia. Botei minha bota, minhas insígnias e comecei a marchar por ali.
Cada linha me desalinhava. Cada relíquia de adjetivo levava-me a, curiosamente, perquirir de onde? Havia um “subitamente” precoce e uma brisa, que não sai mais.
Me deliciei pela rebeldia e quase não retorno para os meus compromissos de segunda. Ainda estou lá.
Dedicado ao Joãozinho
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