Casos de polícia / POR Johnny Guimaraes
31 de agosto de 2020

Uerê

Foi com o GATE – Grupamento de Ações Táticas Especiais que fizemos treinamento naqueles dias. Era época de lançamento do Tropa de Elite, e, de alguma forma, aquele filme, ainda que sem a direta intenção, mexeu com o brio da polícia.

Estávamos todos mais alertas, dispostos ao embate e cada um querendo trazer para si alguma revolta do capitão Nascimento ou a disposição do aspirante Neto.

Eram comuns sessões de polícias para ver e comentar o filme. Algumas falas épicas da película passaram, desde então, a fazer parte da gíria operacional.

Foi neste contexto que eu me vi naquela linha de tiro, num estande, empolgado, treinando o manejo e disparo de fuzis.

A linha de tiro é rígida com a disciplina, sobretudo quando o exercício é com bala real, e qualquer descuido com a segurança pode te custar, nos casos leves, uma sequência vexatória de flexões, ou, nos casos graves, o desligamento do curso.

O instrutor é o mandachuva da linha de tiro e é preciso ter ouvidos abertos, olhos perspicazes e uma concentração que te permita não pagar aquele mico. Ah, e é bom não fazer perguntas.

Se a dúvida trouxer a suspeita de questionamento quanto à técnica adotada, pode cheirar mal. Ainda que a certeza que você tenha quanto à crítica que faça seja lógica e comprovada, será sempre impertinente.

Fique calado, portanto.

Para evidenciar a autoridade, geralmente o instrutor usa um apito para reforçar a voz de comando. Sim, como os adestradores. É preciso ser duro com os recrutas, que, como sabem, podem não ser caveiras e se revelarem uns verdadeiros moleques.

Por estas e outras é que a linha de tiro, para mim, é um momento tenso desde a academia de polícia. Sempre tenho câimbras nos malqueridos dias de treino.

Neste dia não foi diferente. E o instrutor, oficial da honrosa Polícia Militar mineira, dava as ordens dos tiros e tinha autoridade para controlar até mesmo nossa respiração. Eu, nervoso por também representar outro órgão de segurança entre tantos PMs, com a responsabilidade de não expor em qualquer erro a briosa PF, ouvia, forte na linha avançada, como um coroinha que rezasse uma oração, a ordem do comandante.

Nem piscava. Braços duros. Pernas tensas. Torcicolo.

Só mexia os olhos.

E de repente:

– Todos a postos??? Atenção, alínea!!! – ordenou o instrutor.

Calma aí. Mas não era uma linha de tiro? “Alínea”? Não seria uma linha? Alínea não é a primeira linha de um parágrafo ou uma subdivisão dos artigos de uma lei? Disso eu entendo bem. Não pode ser “alínea”, não pode. Vou dizer. Vou perguntar. Levantando o dedo … Pára. Mira o alvo. Atenção. Fica quieto.

– Dois disparos!!! Ao meu comando!!! – ordenou o instrutor.

Agora vai bala. Não posso apontar a arma na direção de ninguém. Não posso por o dedo no gatilho antes da hora. Tenho que atirar somente depois da arma estar no centro do alvo. Não posso me assustar com o barulho dos tiros dos colegas. E se a arma falhar? Esta gandola faz um calor danado e essa bota pesa. E se eu errar a empunhadura como naquele outro dia?

– Uerê!!! – ordenou o instrutor.

Agora vou perguntar. Será que há tempo antes do próximo grito? Mas a boca dele já está preparada para outro disparo…

-Up, up!!! – ordenou o instrutor.

Agora eu pergunto, ah, eu pergunto: Uerê??? Será que há uma técnica indígena nesta manobra? Seria uma homenagem aos povos originários? Quanta distância entre uma flecha e uma arma de fogo. Uerê??? Vou levantar a mão na linha de tiro. Uerê seria um primo de Tupâ? Professor… quer dizer, instrutor. Não.

– Uerê!!! – ordenou o instrutor.

De novo. Não estou surdo. Não é minha enxaqueca vestibular de hora errada. Eu ouvi o Uerê, meu Deus. Vou ter que questionar e acabar pagando dez flexões. Mas lá vem outro petardo…

-Up, up!!!

Agora lanço minha dúvida:

– Caríssimo instrutor, sem querer atrapalhar vossa linha de tiro, “alínea” de tiro, quer dizer, me desculpe… vou perguntar é nada, coisíssima nenhuma! Vou ficar quieto, rijo e atento.

-Uerê!!! Up, up!!! – ordenou o instrutor.

De novo e de novo e de novo. Até que a munição do fuzil se acabasse.

E meus tiros foram surpreendentemente bons. Adiantei-me e fui até à silhueta utilizada como alvo sem questionar absolutamente nada, nadinha. Apenas avaliei os furos que fiz no papel e fiquei calado, como se nada passasse por minha cabeça. Lembrei-me do professor Sacconi dizendo das vírgulas, “na dúvida, evite-as, passará por esquecimento e não por algo menos lisonjeiro”, e me senti uma vírgula naquela “alínea”.

Pois bem. Após o ocorrido, comentei com dois colegas que presenciaram o fato e, depois de uma ligeira e hilária investigação, chegamos à mesma conclusão:

É certo que, quando um grupo de policiais militares participou de um treinamento na SWAT americana, o boss da “alínea” de tiro, teria dito, firme e de forma exemplar:

All ready? Up, up!

All ready? Up, up!

e…

All ready virou Uerê.

Uma corruptela mineira da linguagem a favor do combate à criminalidade. O inglês e o tupi-guarani se unindo, como arco e flecha.

Sem mais. Nem precisei perguntar para saber a origem do desvio linguístico, mais tarde confirmada por um amigo comandante do BOPE mineiro.

Com isto, nada de flexões por hoje.

Meus livros à venda
Outras Publicações
%d blogueiros gostam disto: