Futebol de rua / POR Johnny Guimaraes
23 de julho de 2017

Valdo

Que saudade do Valdo. Era um menino engraçado, ainda se acostumando com o corpo. Parecia ser maior que ele mesmo. Mas fazia com gosto parte do time. Éramos o Binha, Dengo, Tande, Berê (o craque), Nêm, Célio e Valdo. E todos estávamos esperando aquele dia. Era a final do jogo da rua, e disputaríamos o título com o pessoal da rua de baixo. Pois bem, começamos o jogo perdendo, e eu já tinha tomado dois gols. O Nêm que corria muito e tinha apelido de Torresmo, empatou, com dois sorrisos que só ele. Lá pelo meio do segundo tempo, vi o Valdo sozinho e arremessei a bola. Ele dominou, driblou o zagueiro que quis impedir e chutou forte. Forte, tão forte que o golaço pareceu covardia com a meninada. Vibramos tanto que descobrimos naquele instante sermos uma família. Mas o chute tinha sido muito forte e o pessoal de lá não gostou. Não gostou tanto que se negou a buscar a bola que tinha ido parar num pomar que havia lá embaixo. Era conhecida a regra de que, quem tomasse o gol, buscava a bola. O outro time apelou e quebrou aquele costume. Num momento de felicidade e humildade, o nosso herói disse: “Deixa que eu busco!” E lá foi o Valdo buscar a bola do jogo, no meio das frutas e da passarinhada, sem querer parar de ser feliz. Lá foi o Valdo para o lugar que a gente pensava que sabia. Ele foi buscar a bola e não voltava mais. O tempo passou, veio a noite, a hora do banho e o Valdo não voltava. Nunca mais voltou. Ganhamos o jogo que não terminou. Perdemos o Valdo de vista. Nosso time para sempre jogou desfalcado. Que saudade do Valdo.

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